Os novos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o PISA 2025, divulgados recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), deveriam provocar no Brasil menos comemoração ou indignação instantânea e muito mais reflexão. O país melhorou em perspectiva histórica, e isso precisa ser reconhecido, mas continua apresentando um problema educacional que não pode mais ser escondido atrás de discursos, slogans, disputas ideológicas ou rankings: nossos estudantes ainda chegam aos 15 anos com dificuldades importantes para ler, interpretar, raciocinar matematicamente, compreender fenômenos científicos e utilizar conhecimentos escolares diante de problemas concretos da vida cotidiana. O PISA não mede simplesmente aquilo que o estudante decorou na escola. Seu propósito é avaliar a capacidade de jovens de 15 anos de utilizar conhecimentos e habilidades para enfrentar situações reais, interpretar informações, resolver problemas e tomar decisões. Em 2025, aproximadamente 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram da avaliação. No Brasil, foram 30.140 estudantes, distribuídos em 1.053 escolas. Os números, portanto, oferecem uma fotografia bastante ampla da educação brasileira e, justamente por isso, merecem ser analisados com seriedade.
O Brasil alcançou 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências. A média da OCDE foi de 461 pontos em Leitura e 463 em Matemática. A distância permanece expressiva: 53 pontos em Leitura e impressionantes 86 pontos em Matemática. Esses números não deveriam ser tratados apenas como posições em uma tabela internacional. Eles representam algo muito mais profundo: revelam a dificuldade que o sistema educacional brasileiro ainda encontra para assegurar que aquilo que ensinamos seja efetivamente aprendido. E talvez essa seja uma das questões mais importantes do debate educacional contemporâneo. Durante décadas, o Brasil discutiu acesso, matrícula, expansão das redes e universalização do ensino. Fizemos avanços extraordinários nesse campo. Conseguimos colocar praticamente todas as crianças e adolescentes na escola. O desafio contemporâneo, porém, é outro. Não basta garantir o direito de estar na escola. Precisamos garantir o direito de aprender na escola.
A Matemática continua sendo, nesse sentido, uma das maiores fragilidades brasileiras. Apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência matemática no PISA 2025, enquanto a média dos países da OCDE chegou a 65%. Isso significa que aproximadamente sete em cada dez jovens brasileiros de 15 anos não alcançaram sequer o patamar básico definido pela avaliação internacional. É importante compreender o que isso significa antes de transformar o número em uma mera estatística. Não estamos falando de estudantes que simplesmente não dominam conteúdos avançados, como cálculo diferencial, trigonometria sofisticada ou álgebra complexa. Estamos falando de jovens que apresentam dificuldades para utilizar conhecimentos matemáticos básicos em situações que exigem interpretação, raciocínio e resolução de problemas. A Matemática, no mundo contemporâneo, não é apenas uma disciplina escolar. Ela é uma linguagem fundamental para compreender a realidade. Está presente na leitura de gráficos, nas estatísticas, nos juros, no planejamento financeiro, na compreensão de pesquisas, na interpretação de indicadores sociais, no consumo, no trabalho, na tecnologia e nas decisões cotidianas. Uma sociedade na qual grande parte dos jovens não consegue utilizar adequadamente conceitos matemáticos básicos é uma sociedade mais vulnerável à desinformação, à manipulação de números e à incapacidade de avaliar criticamente informações quantitativas.
É necessário, portanto, repensar a maneira como ensinamos Matemática. Durante muito tempo, a escola brasileira esteve excessivamente concentrada na reprodução de procedimentos. O estudante aprende uma fórmula, repete um algoritmo, resolve uma série de exercícios e, muitas vezes, consegue reproduzir o procedimento na prova. O problema aparece quando a situação muda. Quando o número deixa de estar acompanhado de uma instrução explícita, quando o problema exige interpretação, quando é necessário decidir qual operação utilizar, quando o estudante precisa relacionar diferentes informações, a aprendizagem frequentemente se desfaz. O desafio não é simplesmente ensinar mais Matemática. É ensinar uma Matemática que faça sentido, que desenvolva raciocínio, que permita ao estudante compreender por que determinado procedimento funciona e em que circunstâncias deve ser utilizado. O conhecimento matemático precisa deixar de ser percebido como uma coleção de fórmulas para se transformar em instrumento de pensamento.
Na Leitura, a situação também merece atenção. Aproximadamente 49% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior de proficiência, diante de 69% na média da OCDE. Mais preocupante ainda é observar o extremo superior da escala: apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu o nível 5 ou superior em Leitura, contra 6% na média da OCDE. O problema, novamente, não pode ser reduzido à capacidade de decodificar palavras. Um estudante pode ler uma frase sem necessariamente compreender profundamente o que ela significa. Ler, em uma sociedade complexa, significa localizar informações, estabelecer relações, identificar argumentos, reconhecer pressupostos, compreender aquilo que está implícito, distinguir fato de opinião, avaliar a confiabilidade de uma informação e construir uma interpretação própria. É justamente nesse campo que encontramos uma das maiores fragilidades da educação brasileira.
Talvez seja por isso que o problema da leitura precise ser encarado como um problema de democracia. Uma pessoa que não compreende adequadamente um texto encontra mais dificuldades para compreender uma notícia, um contrato, uma lei, uma pesquisa científica, uma bula de medicamento, uma proposta política ou uma informação publicada nas redes sociais. A dificuldade de leitura não é simplesmente uma dificuldade escolar. Ela pode transformar-se em vulnerabilidade social. Quanto menor a capacidade de compreender criticamente aquilo que se lê, maior a possibilidade de aceitar como verdadeira qualquer afirmação apresentada de maneira convincente. Em tempos de inteligência artificial, algoritmos, vídeos curtos, desinformação e produção massiva de conteúdos, a competência leitora tornou-se ainda mais importante. O problema é que estamos justamente diante de uma geração que dispõe de uma quantidade de informação jamais experimentada pela humanidade e, paradoxalmente, pode apresentar dificuldades para compreender aquilo que recebe.
O próprio PISA 2025 oferece uma informação que deveria provocar uma discussão educacional urgente. Cerca de 48% dos estudantes brasileiros afirmaram utilizar chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender, enquanto 31% disseram utilizar ferramentas de inteligência artificial para resumir textos que precisavam ler. Não considero que a resposta para isso seja proibir a tecnologia. Seria impossível e, mais do que isso, pedagogicamente equivocado. A questão é outra: precisamos ensinar o estudante a utilizar a inteligência artificial sem terceirizar para ela a própria capacidade de pensar. A inteligência artificial pode explicar, comparar, exemplificar, organizar e até questionar. Mas uma escola que abandona a formação intelectual do estudante em favor de respostas prontas corre o risco de produzir uma geração que sabe pedir respostas, mas não sabe formular perguntas; que sabe produzir textos, mas não necessariamente compreende aquilo que escreve; que sabe resolver uma conta com uma ferramenta, mas não sabe avaliar se o resultado obtido faz sentido.
A questão da leitura, portanto, conecta-se diretamente à questão da inteligência artificial. Quanto mais poderosa é a tecnologia, maior precisa ser a capacidade humana de julgamento. Não precisamos de estudantes incapazes de utilizar ferramentas tecnológicas. Precisamos de estudantes intelectualmente preparados para utilizá-las com autonomia. O jovem que não consegue avaliar criticamente uma resposta produzida por uma máquina está submetido à máquina. O jovem que domina leitura, escrita, Matemática, ciência e argumentação pode utilizar a tecnologia como instrumento de ampliação de sua inteligência. Essa diferença será decisiva nos próximos anos.
Apesar de todos esses problemas, seria um erro afirmar que o Brasil não avançou. Avançou. E avançou de maneira relevante. Quando analisamos os resultados em perspectiva histórica, o cenário é diferente daquele que uma leitura superficial do ranking poderia sugerir. Desde 2006, o Brasil está entre os países que mais aumentaram sua proficiência no PISA. O país ocupa a sétima posição em crescimento histórico em Leitura e Matemática e a oitava em Ciências. A distância em relação à média da OCDE também diminuiu ao longo das últimas duas décadas. Em Leitura, a diferença caiu de 102 pontos em 2006 para 58 pontos em 2025. Em Matemática, diminuiu de 131 para 92 pontos. Em Ciências, passou de 113 para 77 pontos. Isso é importante. Significa que o sistema educacional brasileiro não está parado. Há melhorias acumuladas ao longo do tempo e elas precisam ser reconhecidas.
Mas reconhecer o avanço não significa aceitar o resultado como suficiente. Esse talvez seja o equilíbrio que falta ao debate educacional brasileiro. Há quem enxergue qualquer resultado positivo como prova de que tudo está funcionando. Há também quem enxergue qualquer resultado ruim como prova de que tudo fracassou. As duas interpretações são insuficientes. O Brasil melhorou e, ao mesmo tempo, continua muito abaixo do que deveria estar. As duas afirmações são verdadeiras. E uma análise intelectualmente séria precisa ser capaz de sustentar simultaneamente essas duas ideias.
Há ainda outro elemento fundamental: a desigualdade. O desempenho educacional brasileiro continua profundamente relacionado às condições socioeconômicas dos estudantes. No Brasil, o status socioeconômico explicou 16% da variação no desempenho em Ciências, acima dos 12% observados, em média, na OCDE. Entre 2015 e 2025, a distância de desempenho entre estudantes socioeconomicamente favorecidos e desfavorecidos aumentou no país. Isso nos impede de tratar os resultados simplesmente como consequência de esforço ou falta de esforço individual. Crianças e adolescentes chegam à escola carregando histórias diferentes, condições familiares diferentes, repertórios culturais diferentes e possibilidades materiais diferentes.
Mas também aqui precisamos ter cuidado. Reconhecer o peso da desigualdade não pode significar aceitar a desigualdade como uma espécie de destino educacional. Pelo contrário. A razão de existir da escola pública e da política educacional é justamente reduzir, por meio do conhecimento, algumas das desigualdades que existem na sociedade. Se a origem social determina de maneira quase inevitável aquilo que uma criança aprenderá, então a escola não está cumprindo plenamente sua função emancipadora. Uma escola de qualidade precisa ser capaz de produzir oportunidades que não existiriam espontaneamente fora dela.
É por isso que o professor permanece no centro da discussão. Não existe política educacional consistente sem professor. Não existe reforma curricular capaz de produzir bons resultados se quem precisa implementá-la não dispõe de formação, condições de trabalho, tempo, recursos e reconhecimento profissional. Mas também precisamos superar a ideia de que valorizar o professor significa abandonar qualquer cobrança por resultados. Valorizar o professor significa oferecer condições para que ele possa ensinar bem. E cobrar aprendizagem significa reconhecer que o trabalho docente possui uma finalidade social extremamente importante. O estudante precisa aprender e o professor precisa ter condições concretas para fazê-lo aprender.
Também precisamos abandonar algumas falsas oposições que frequentemente aparecem no debate educacional brasileiro. Não precisamos escolher entre inclusão e aprendizagem. Não precisamos escolher entre formação humana e conteúdos acadêmicos. Não precisamos escolher entre pensamento crítico e Matemática. Não precisamos escolher entre tecnologia e leitura. Uma educação verdadeiramente democrática precisa fazer tudo isso. Precisa acolher, incluir, formar para a cidadania, desenvolver sensibilidade social, estimular pensamento crítico e, simultaneamente, garantir que o estudante saiba ler, escrever, interpretar, calcular, argumentar, investigar e resolver problemas.
A escola brasileira não pode se contentar em manter o estudante ocupado. Precisa fazê-lo intelectualmente mais capaz. Esse é um ponto que considero essencial. Há uma diferença enorme entre escolarização e aprendizagem. Um estudante pode permanecer anos dentro de uma instituição escolar e, ainda assim, desenvolver competências muito abaixo daquilo que seria esperado para sua idade. A matrícula é um indicador de acesso. A aprendizagem é um indicador de qualidade.
E talvez seja justamente esse o grande desafio brasileiro para os próximos anos. Já aprendemos, como sociedade, a importância de colocar as crianças e adolescentes dentro da escola. Agora precisamos aprender a construir escolas nas quais eles efetivamente aprendam. Isso exige alfabetização sólida, políticas de recomposição das aprendizagens, atenção especial à Matemática, incentivo permanente à leitura, formação continuada de professores, acompanhamento sistemático dos resultados, gestão pedagógica eficiente, redução das desigualdades e, sobretudo, uma cultura escolar que volte a tratar o conhecimento como algo central.
O PISA 2025 também traz uma informação que considero alentadora: 72% dos estudantes brasileiros afirmam ter curiosidade sobre muitos assuntos diferentes e 59% dizem fazer esforço adicional quando o trabalho se torna desafiador. Isso nos mostra que o problema não está em uma suposta incapacidade de nossa juventude. Nossos jovens têm curiosidade, energia, desejos e capacidade de aprender. O que precisamos construir é uma escola capaz de transformar essa disposição em conhecimento efetivo.
Não acredito, portanto, na ideia de uma geração perdida. Acredito em uma geração que está diante de desafios enormes e que precisa de uma escola à altura desses desafios. O jovem brasileiro não precisa que reduzamos nossas expectativas sobre ele. Precisa justamente do contrário. Precisa que esperemos mais dele, que lhe ofereçamos melhores condições e que levemos a sério sua capacidade de aprender.
O resultado do PISA deveria ser encarado como um espelho da educação brasileira. E espelhos não existem para serem elogiados nem para serem quebrados quando não gostamos da imagem que apresentam. Existem para mostrar aquilo que precisa ser corrigido. O Brasil avançou, e isso merece reconhecimento. Mas ainda temos uma distância muito grande a percorrer. Em Matemática, a situação é especialmente preocupante. Em Leitura, continuamos formando muitos jovens que conseguem atravessar um texto, mas encontram dificuldades para compreendê-lo em profundidade. Em Ciências, também estamos abaixo dos padrões desejáveis. E, por trás de todos esses indicadores, encontramos desigualdade social, diferenças regionais, problemas históricos de formação e uma escola que ainda precisa fortalecer sua capacidade de ensinar.
Não deveríamos, portanto, perguntar apenas em que posição o Brasil ficou no ranking. A pergunta mais importante é outra: o que nossos estudantes sabem fazer quando deixam a escola? Conseguem compreender um texto complexo? Conseguem interpretar um gráfico? Conseguem avaliar uma informação que circula nas redes sociais? Conseguem calcular um desconto? Conseguem compreender juros? Conseguem formular uma hipótese? Conseguem argumentar? Conseguem distinguir uma opinião de uma evidência? Conseguem utilizar a tecnologia sem serem utilizados por ela?
Essas são perguntas muito mais importantes do que a posição brasileira em uma tabela internacional.
A educação brasileira precisa recuperar uma ideia aparentemente simples, mas que talvez tenhamos esquecido: ensinar é fazer o outro avançar intelectualmente. A escola não existe apenas para certificar, ocupar, socializar ou transmitir informações. Ela existe também para ampliar aquilo que uma pessoa é capaz de compreender, pensar e fazer.
Por isso, o PISA 2025 não deveria produzir nem euforia nem desesperança. Deveria produzir responsabilidade. Responsabilidade para reconhecer os avanços sem esconder os problemas; para cobrar políticas públicas sem transformar a escola em objeto de disputa ideológica permanente; para valorizar professores sem abandonar a exigência de aprendizagem; para combater desigualdades sem utilizar a desigualdade como desculpa para o fracasso; e para incorporar a inteligência artificial sem permitir que ela substitua aquilo que a educação tem de mais importante: a formação da inteligência humana.
O Brasil já descobriu como colocar milhões de estudantes dentro da escola. Agora precisa descobrir como fazer com que eles saiam dela intelectualmente mais fortes.
Precisamos de mais leitura, mais Matemática, mais ciência, mais professores valorizados, mais tempo para aprender, mais concentração, mais rigor intelectual, mais pensamento crítico e mais ambição educacional. Precisamos parar de considerar extraordinário aquilo que deveria ser básico: que um jovem termine a educação básica sabendo ler com profundidade, escrever com clareza, raciocinar matematicamente, compreender ciência e pensar por conta própria.
O verdadeiro desafio do Brasil não é simplesmente subir algumas posições no próximo ranking internacional. É construir uma escola na qual o conhecimento deixe de ser privilégio e passe a ser, efetivamente, um patrimônio de todos.
Porque estar na escola é um direito.
