A educação brasileira atravessa uma crise profunda que muitos insistem em suavizar com discursos otimistas, slogans vazios e a repetição automática de teorias consagradas. No entanto, há momentos em que é preciso abandonar o conforto das palavras bonitas e encarar a realidade com honestidade intelectual. A verdade é dura: não existe transformação educacional possível com docentes desanimados, despreparados, parados no tempo e à espera de milagres. A escola não precisa de professores em estado de espera, mas de educadores em estado permanente de inquietação.
Parte significativa do fracasso escolar, da evasão, do desinteresse discente e da perda de sentido da escola passa, inevitavelmente, pela postura docente. Isso não significa ignorar as condições estruturais precárias, os baixos salários, a sobrecarga de trabalho ou as políticas públicas inconsistentes. Significa, sim, reconhecer que, mesmo dentro dessas limitações, há escolhas sendo feitas todos os dias. Escolhe-se estudar ou não estudar. Escolhe-se repetir práticas antigas ou buscar novos caminhos. Escolhe-se responsabilizar o aluno ou assumir o papel formativo que a docência exige.
É comum ouvir que “sempre foi assim” ou que “na minha época funcionava”. Esse tipo de argumento revela mais resistência à mudança do que compromisso pedagógico. A educação não é um museu de métodos antigos, tampouco um espaço de nostalgia profissional. Ela é um campo vivo, atravessado por transformações sociais, culturais, tecnológicas e subjetivas. Permanecer imóvel diante disso não é neutralidade; é omissão.
Os grandes teóricos da educação são frequentemente convocados para justificar práticas ultrapassadas. Piaget, Vygotsky, Wallon e Freire aparecem em planejamentos, projetos políticos pedagógicos e discursos docentes como se fossem palavras mágicas. Contudo, pouco se percebe de seus pressupostos na prática cotidiana. Piaget nunca defendeu aulas mecânicas e descontextualizadas; Vygotsky jamais separou aprendizagem de contexto social; Freire nunca aceitou uma pedagogia acomodada e silenciosa. Transformar esses autores em dogmas é esvaziar sua força crítica.
Paulo Freire é claro ao afirmar que ensinar exige rigor, curiosidade e compromisso ético (FREIRE, 1996). No entanto, o que se vê, em muitos casos, é a apropriação superficial de suas ideias, sem a coragem de assumir o caráter político da educação. Falar em pedagogia crítica sem rever práticas autoritárias, avaliações punitivas e aulas centradas exclusivamente no professor é incoerência pedagógica.
Os estudantes de hoje vivem em um mundo radicalmente distinto daquele para o qual muitos professores foram formados. Trata-se de uma geração marcada pela hiperconectividade, pela velocidade da informação, pela cultura das redes sociais, pela precarização das relações humanas e por profundas desigualdades sociais e emocionais. Ignorar essa realidade é condenar a escola à irrelevância. Como aponta Bauman (2001), vivemos em uma modernidade líquida, na qual as estruturas sólidas se dissolvem rapidamente. Insistir em práticas rígidas em um mundo fluido é pedagogicamente irresponsável.
Além disso, a escola recebe alunos atravessados pela pobreza, pela violência, pela fome, pelo racismo, pela homofobia, pela exclusão digital e pelo adoecimento emocional. Fingir que todos aprendem da mesma forma, no mesmo tempo e pelas mesmas estratégias é negar a própria função social da educação. O professor que não considera essas dimensões não é apenas desatualizado; é injusto.
Ser docente, hoje, exige muito mais do que domínio de conteúdo. Exige formação contínua, leitura permanente, abertura ao diálogo interdisciplinar e disposição para rever certezas. Não se trata de acumular certificados ou cumprir exigências burocráticas, mas de compreender que quem educa precisa, inevitavelmente, continuar aprendendo. A formação continuada não pode ser vista como castigo ou obrigação institucional, mas como expressão de compromisso ético com os estudantes.
Há uma diferença fundamental entre o professor que se capacita por amor à profissão e aquele que o faz apenas para progressão funcional. O primeiro estuda porque acredita na potência transformadora da educação; o segundo cumpre etapas para manter-se no sistema. Essa diferença aparece claramente na sala de aula. Um ensina com sentido; o outro apenas ocupa o tempo.
Como afirma Nóvoa (2009), a formação docente é um processo identitário, construído ao longo da trajetória profissional, na reflexão crítica sobre a prática. Não há docência viva sem reflexão. O professor que não reflete sobre o que faz tende a repetir erros, naturalizar fracassos e culpar fatores externos por tudo aquilo que poderia, ao menos em parte, ser transformado.
É preciso dizer sem rodeios: o professor que não estuda, que não se atualiza e que não se inquieta contribui diretamente para a exclusão educacional. Produz desinteresse, silenciamento e fracasso escolar. A neutralidade pedagógica é uma ilusão confortável. Toda prática educativa carrega uma concepção de mundo, de sujeito e de sociedade. Permanecer parado é, na prática, escolher a manutenção das desigualdades.
A ideia de que a experiência por si só basta é outro equívoco recorrente. Experiência sem reflexão não é sabedoria; é repetição. Anos de sala de aula não garantem qualidade pedagógica se não forem acompanhados de estudo, análise crítica e abertura ao novo. A docência não se sustenta apenas no tempo de serviço, mas na capacidade de aprender com ele.
Esperar milagres é sempre mais fácil do que assumir responsabilidades. É mais confortável culpar o aluno, a família, a gestão escolar ou o sistema do que reconhecer que a docência exige reinvenção constante. No entanto, a educação nunca foi território de conforto. Sempre foi espaço de conflito, tensão, escolha e compromisso ético. Quem não está disposto a enfrentar isso talvez precise repensar sua permanência na profissão.
Não se trata de desqualificar os professores, mas de chamar à responsabilidade. A crítica aqui não é pessoal, é profissional. A escola precisa de docentes animados, preparados, comprometidos e em constante formação. Professores que compreendam que ensinar é um ato profundamente político e humano, que exige estudo, sensibilidade e coragem.
Se quisermos uma escola viva, crítica e socialmente relevante, precisamos abandonar de vez a pedagogia da espera. Precisamos de professores em movimento, dispostos a aprender com seus alunos, com a realidade e com os desafios do tempo presente. Fora disso, continuaremos presos a um teatro pedagógico: belas teorias no papel, práticas vazias na realidade e estudantes cada vez mais distantes daquilo que a escola promete, mas insiste em não entregar.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
NÓVOA, António. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2009.
Por: Prof. Dr. Renan Antônio da Silva
