Escrita e o uso de IAs na graduação: um problema ou solução?

A escrita acadêmica sempre ocupou um lugar central na formação universitária. Mais do que um simples instrumento de avaliação, escrever na graduação é um exercício de pensamento, de organização das ideias, de argumentação e de construção da identidade intelectual do estudante. Ao longo da história da universidade, diferentes tecnologias impactaram esse processo: do manuscrito ao livro impresso, da máquina de escrever ao computador, dos editores de texto às plataformas digitais. Nesse percurso, cada inovação foi inicialmente vista com desconfiança, sendo posteriormente incorporada às práticas acadêmicas.

Nos últimos anos, contudo, a emergência das inteligências artificiais generativas — capazes de produzir textos, resumos, traduções, análises e até ensaios completos — reacendeu debates profundos sobre autoria, aprendizagem, ética e avaliação. No contexto da graduação, tais debates tornam-se ainda mais sensíveis, uma vez que esse nível de ensino é responsável pela formação inicial do pensamento científico e crítico. Surge, então, a pergunta central deste texto: o uso de IAs na escrita acadêmica de graduação representa um problema ou uma solução?

Defendo, neste texto de opinião, que a resposta não é binária. As inteligências artificiais podem ser tanto um risco quanto uma potente ferramenta pedagógica, dependendo das concepções de ensino, das práticas docentes e das políticas institucionais que orientam seu uso. Para sustentar essa posição, apresento a seguir os principais pontos positivos e negativos do uso de IAs na escrita acadêmica na graduação.

A escrita acadêmica como processo formativo

Antes de discutir o papel das inteligências artificiais, é fundamental compreender o sentido da escrita na graduação. Escrever não é apenas registrar conhecimentos já consolidados, mas produzir sentidos, elaborar conceitos e dialogar com tradições teóricas. Ao redigir um texto acadêmico, o estudante é convidado a ler criticamente, selecionar argumentos, articular referências e posicionar-se frente a diferentes perspectivas.

Nesse sentido, a escrita é também um espaço de conflito e de dificuldade. Muitos estudantes chegam à universidade com lacunas na formação leitora e escritora, enfrentando inseguranças, bloqueios e dificuldades de expressão. Historicamente, essas fragilidades foram tratadas como falhas individuais, quando, na verdade, revelam desigualdades educacionais estruturais. É nesse cenário que as IAs passam a ser utilizadas, muitas vezes como um apoio informal para suprir essas lacunas.

Pontos positivos do uso de IAs na escrita na graduação

Um dos principais argumentos favoráveis ao uso de inteligências artificiais na escrita acadêmica é o seu potencial como ferramenta de apoio pedagógico. Quando utilizadas de forma orientada, as IAs podem auxiliar estudantes na organização das ideias, na estruturação de textos, na revisão gramatical e na adequação da linguagem acadêmica. Para alunos que enfrentam dificuldades iniciais de escrita, esse suporte pode reduzir a ansiedade e estimular a produção textual.

Outro aspecto positivo é a possibilidade de democratização do acesso ao apoio acadêmico. Nem todos os estudantes têm condições de contratar revisores, participar de cursos extracurriculares ou receber acompanhamento individualizado. As IAs, nesse sentido, podem funcionar como uma espécie de tutor inicial, oferecendo sugestões e exemplos que auxiliam no processo de aprendizagem.

Além disso, as inteligências artificiais podem favorecer práticas pedagógicas mais reflexivas quando integradas de maneira crítica às disciplinas. Professores podem propor atividades que envolvam a comparação entre textos produzidos por estudantes e textos gerados por IA, estimulando análises sobre estilo, coerência, profundidade teórica e originalidade. Essa abordagem desloca o foco da simples entrega do produto final para a compreensão do processo de escrita.

Há ainda o potencial das IAs para apoiar estudantes em tarefas como levantamento de ideias iniciais, elaboração de roteiros, resumos de textos complexos e revisão linguística. Nessas situações, a IA não substitui o pensamento do estudante, mas atua como uma ferramenta mediadora, semelhante a um dicionário, um manual de metodologia ou um editor de texto avançado.

Pontos negativos e riscos do uso de IAs na escrita acadêmica

Apesar dos potenciais benefícios, os riscos associados ao uso indiscriminado de inteligências artificiais na escrita acadêmica são significativos. O primeiro deles diz respeito ao empobrecimento do processo formativo. Quando a IA é utilizada para produzir textos completos, sem reflexão crítica, o estudante deixa de exercitar habilidades fundamentais, como argumentação, síntese, análise e autoria.

Outro problema central é a questão da autoria e da ética acadêmica. A escrita universitária pressupõe responsabilidade intelectual sobre aquilo que se escreve. O uso de textos gerados por IA, sem qualquer mediação ou reconhecimento, pode configurar formas sutis de plágio ou, ao menos, de terceirização do pensamento. Isso fragiliza princípios básicos da produção científica e compromete a formação ética dos futuros profissionais.

Há também o risco da padronização do pensamento. Textos gerados por inteligências artificiais tendem a reproduzir estruturas, estilos e argumentos recorrentes nos dados com os quais foram treinadas. O resultado pode ser uma escrita homogênea, pouco criativa e distante da singularidade do estudante. Em um ambiente acadêmico que deveria valorizar a diversidade de perspectivas, essa uniformização é especialmente preocupante.

Além disso, é preciso considerar as desigualdades no acesso e no uso das tecnologias. Embora muitas ferramentas de IA sejam amplamente divulgadas, nem todos os estudantes possuem o mesmo nível de letramento digital para utilizá-las de forma crítica. Sem orientação adequada, o uso da IA pode aprofundar desigualdades já existentes, beneficiando aqueles que sabem explorá-la estrategicamente.

O papel do professor e da instituição

Diante desse cenário, o papel do professor universitário torna-se ainda mais central. Proibir o uso de inteligências artificiais, de forma absoluta, tende a ser uma estratégia ineficaz e desconectada da realidade. Por outro lado, permitir seu uso irrestrito, sem critérios pedagógicos, também representa um risco à qualidade da formação.

Cabe às instituições de ensino superior e aos docentes estabelecer diretrizes claras sobre o uso ético e pedagógico das IAs. Isso inclui discutir abertamente com os estudantes o que é permitido, o que é problemático e como essas ferramentas podem ser utilizadas como apoio, e não como substituição do pensamento crítico.

Do ponto de vista avaliativo, torna-se necessário repensar práticas tradicionais baseadas exclusivamente em trabalhos escritos finais. Avaliações processuais, escritas reflexivas, diários de aprendizagem, apresentações orais e atividades em sala podem reduzir a centralidade do texto como produto e valorizar o percurso formativo do estudante.

Problema ou solução?

O uso de inteligências artificiais na escrita acadêmica na graduação não é, em si, nem um problema insolúvel nem uma solução milagrosa. Trata-se de uma tecnologia que escancara fragilidades históricas da universidade, especialmente no que diz respeito à formação para a escrita, à avaliação e às desigualdades educacionais.

Quando utilizadas de forma acrítica, as IAs podem empobrecer a formação acadêmica, enfraquecer a autoria e comprometer a ética universitária. Entretanto, quando integradas a projetos pedagógicos consistentes, podem ampliar possibilidades de aprendizagem, apoiar estudantes em dificuldades e estimular reflexões profundas sobre o próprio ato de escrever.

Mais do que perguntar se as inteligências artificiais devem ou não ser usadas, talvez seja mais produtivo questionar que tipo de escrita, de formação e de universidade desejamos construir. Como já defendi em trabalhos anteriores, a educação não pode se limitar a incluir novas ferramentas sem refletir sobre seus sentidos. Em Excluir incluindo ou incluir excluindo: diário de campo em uma escola inclusiva, argumentei que processos educativos só são verdadeiramente inclusivos quando transformam práticas e concepções, e não apenas discursos. O debate sobre a escrita e o uso de IAs na graduação segue essa mesma lógica: não se trata apenas de incluir a tecnologia, mas de repensar, de forma crítica e ética, o lugar da escrita na formação universitária.

Prof. Dr. Renan Antônio da Silva