A pergunta “para que serve a universidade hoje?” talvez seja uma das mais desconcertantes do nosso tempo não por faltar respostas, mas exatamente porque elas se multiplicam, se contradizem e se esgotam com rapidez. Em uma era marcada por transformações tecnológicas aceleradas, instabilidades econômicas, redefinições do mundo do trabalho e crescente sofrimento psíquico entre jovens e adultos, a universidade já não ocupa, de forma incontestável, o lugar de templo do saber e da ascensão social. Ainda que continue sendo uma das mais importantes conquistas civilizatórias, ela vive hoje uma crise de sentido que atravessa estudantes, pesquisadores e professores, especialmente os que habitam os espaços da pós-graduação.

Durante décadas, estudar foi associado à promessa de futuro. A universidade representava a possibilidade de mobilidade social, estabilidade profissional e reconhecimento simbólico. Ser “doutor” ou “formado” carregava prestígio e garantia, ao menos em parte, uma posição diferenciada no mercado de trabalho. No entanto, essa lógica começa a ruir na sociedade contemporânea. Observa-se uma geração altamente escolarizada, mas insegura, sobrecarregada e, muitas vezes, desempregada ou subempregada. O diploma, que antes era símbolo de chegada, tornou-se ponto de partida incerto quando não apenas mais um título em um currículo saturado.

A crise do sentido de estudar nasce justamente nesse descompasso entre promessa e realidade. Jovens ingressam na universidade carregando expectativas de transformação de vida, mas encontram um percurso permeado por exigências, pressões, cobranças e disputas simbólicas. O espaço universitário, em muitos casos, deixa de ser um ambiente de descoberta, reflexão e liberdade intelectual e passa a ser uma arena de sobrevivência acadêmica. Publicar, pontuar, produzir, competir. A lógica mercadológica adentra as salas de aula, os laboratórios e os grupos de pesquisa, transformando o conhecimento em mercadoria e o estudante em operário intelectual.

Na pós-graduação, esse fenômeno torna-se ainda mais intenso. O mestrando ou doutorando descobre que estudar não se resume ao prazer de aprender, mas à necessidade de corresponder a métricas institucionais, prazos rigorosos e expectativas, muitas vezes, inalcançáveis. A pesquisa deixa de ser um gesto curioso sobre o mundo para se converter em obrigação: é preciso produzir artigos, submeter trabalhos, alcançar qualis elevados, construir um currículo Lattes robusto, conquistar bolsas, concorrer a editais. Em meio a isso, o sentido original do estudo: compreender, questionar, criar, perde espaço para o desempenho.

É nesse cenário que emerge a frustração do pós-graduando. Ela não se manifesta apenas na sobrecarga de atividades, mas no vazio existencial que se instala quando o sentido profundo do estudar se perde. Muitos pesquisadores relatam cansaço extremo, crises de ansiedade, síndrome de impostor, sentimentos de inadequação e invisibilidade. Mesmo com currículos produtivos, vivem a sensação de nunca serem suficientes. O reconhecimento é sempre adiado, condicionado a mais um artigo, mais um congresso, mais uma banca. A trajetória se torna uma corrida quase infinita, na qual a linha de chegada é sempre deslocada.

Paradoxalmente, nunca se produziu tanto conhecimento quanto agora, mas também nunca se questionou tanto a utilidade e a função desse conhecimento. A sociedade, que deveria se beneficiar das pesquisas acadêmicas, muitas vezes permanece distante delas. Artigos científicos são publicados em línguas inacessíveis, em revistas restritas, com linguagem hermética, fechando-se em círculos que dialogam apenas entre si. O saber deixa de circular e cumprir sua função social transformadora. Assim, o estudante também começa a se perguntar: “Para quem estou escrevendo? Em nome de quê estou pesquisando?”

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho se mostra contraditório. Há vagas que exigem alta qualificação, mas oferecem baixos salários. Há doutores dirigindo aplicativos de transporte, mestres atuando fora de suas áreas, pesquisadores abandonando a academia por esgotamento ou falta de oportunidade. Isso não diminui o valor do estudo, mas escancara a falha de um sistema que prometeu mais do que pôde cumprir. O diploma, portanto, entra em crise enquanto símbolo de segurança e felicidade. E sem esse fundamento, o ato de estudar passa a ser questionado em sua essência.

No plano subjetivo, o estudante é atravessado por uma angústia silenciosa: escolher estudar torna-se, muitas vezes, lado a lado com a culpa de “não estar produzindo dinheiro”, de “ainda não ter independência” ou de “estar atrasado em relação à vida dos outros”. Redes sociais exibem conquistas rápidas, viagens, bens e empreendimentos, enquanto a vida acadêmica segue entre leituras densas, bolsas insuficientes e anos de dedicação invisível. O tempo do estudo não combina com o tempo da vitrine social, e é nesse conflito que a autoestima acadêmica é corroída.

Além disso, a felicidade, frequentemente associada à realização profissional, também entra em colapso conceitual. Se antes acreditava-se que “estudar muito” era a chave para “ser alguém na vida”, hoje essa lógica se mostra insuficiente. Pessoas formadas, tituladas e produtivas se veem infelizes, adoecidas e desconectadas de si mesmas. A questão muda de foco: não é apenas sobre estudar para ter, mas sobre estudar para existir. Qual o lugar do desejo, da identidade e do sentido nesse percurso?

Contudo, mesmo diante dessa crise, a universidade continua sendo um espaço de potência. Ela ainda é um dos poucos territórios onde o pensamento crítico pode florescer, onde a ciência resiste às fake news, onde o debate qualificado pode contrariar a superficialidade dominante. O problema, portanto, não está em estudar, mas nas condições em que este estudo se realiza e nos modelos de sucesso que foram impostos. Recuperar o sentido de estudar implica resgatar o valor do tempo lento, da reflexão profunda, da formação humana, e não apenas técnica.

Talvez uma das urgências de nosso tempo seja humanizar novamente a relação com o conhecimento. Isso significa compreender que estudar não é apenas preparar-se para o mercado, mas aprender a olhar o mundo com profundidade, ética e sensibilidade. Significa reconhecer o estudante como sujeito e não apenas como número ou currículo em construção. Significa permitir que a universidade volte a ser espaço de dúvida, diálogo, criação e não apenas produtividade.

A crise do sentido de estudar, portanto, é também uma oportunidade histórica de reinvenção. Questionar o porquê do estudo é o primeiro passo para reconstruí-lo sobre novas bases mais humanas, mais coletivas e mais conectadas com a realidade social. Talvez seja exatamente nesse ponto de ruptura que se encontre a chance de um novo pacto entre universidade, trabalho e felicidade: um pacto menos ilusório e mais verdadeiro.

Se o diploma não garante mais sucesso, talvez o estudo precise ser reivindicado como ato de resistência, consciência e liberdade. Um espaço em que não se aprende apenas para competir, mas para transformar a própria vida e o mundo ao redor.

E, nesse sentido, permanece atual a reflexão já desenvolvida em uma de minhas produções, quando compreendi que “incluir não é apenas permitir a entrada, mas garantir a permanência, o pertencimento e a dignidade dos corpos e das inteligências que sempre estiveram à margem” (SILVA, Excluir incluindo ou incluir excluindo: diário de campo em uma escola inclusiva). Essa metáfora, originalmente pensada para a escola, ecoa hoje, com força ainda maior, dentro da universidade.

 

Prof. Dr. Renan Antônio da Silva