Ao caminhar pelos corredores de uma renomada Universidade Pública, recentemente, vivi uma experiência simples, mas que se transformou em reflexão profunda sobre os rumos da educação superior brasileira. Era cedo, e, como de costume, cumprimentei uma funcionária da limpeza com um sonoro “bom dia”. Para minha surpresa, ela se espantou e, quase incrédula, perguntou: “É comigo mesmo, professor? O senhor está falando comigo?”. Diante da minha resposta afirmativa, explicou, com um sorriso tímido, que raramente algum docente lhe dirigia a palavra. Segundo ela, muitos de seus colegas sentem-se invisíveis, como se fossem meros objetos de manutenção, e não pessoas que fazem parte do mesmo espaço universitário.

Esse breve diálogo me tocou de maneira intensa. Afinal, que universidade estamos construindo quando o simples ato de cumprimentar alguém causa espanto? A cena revela um fenômeno perigoso: a cristalização de uma cultura acadêmica em que títulos e cargos sobrepõem-se ao reconhecimento da humanidade alheia. Ao invés de promover inclusão, a universidade, em muitos casos, reforça hierarquias sociais e simbólicas que desumanizam e silenciam.

Já escrevi em outro trabalho que “a universidade pode incluir excluindo e excluir incluindo”, e essa frase ecoa fortemente nesse contexto. Quando negligenciamos aqueles que garantem o funcionamento cotidiano da instituição, estamos praticando uma exclusão silenciosa, cruel e invisível. A universidade, que deveria ser um espaço de saber e respeito, torna-se palco de vaidades, onde o peso do título acadêmico é usado como instrumento de poder e não de transformação.

O episódio também denuncia a forma como o ego acadêmico, alimentado por prêmios, publicações e cargos, muitas vezes destrói a essência da educação. Quando um professor se julga superior a uma funcionária da limpeza, o que está em jogo não é apenas uma questão de educação formal, mas de valores humanos fundamentais. A arrogância se sobrepõe à empatia; o silêncio, ao diálogo; e a indiferença, à valorização da vida em comum.

É preciso lembrar que a universidade não é feita apenas de laboratórios, bibliotecas e salas de aula. Ela é feita, sobretudo, de pessoas. Pessoas que ensinam, que aprendem, que limpam, que cozinham, que organizam documentos, que zelam pela estrutura. Ignorar essa rede complexa é negar a própria ideia de universidade enquanto comunidade. A invisibilidade desses trabalhadores não é apenas um detalhe social, mas um sintoma de uma universidade doente, desconectada de sua função humanizadora.

O título de doutor, que deveria ser símbolo de compromisso com o conhecimento e a sociedade, muitas vezes se converte em barreira para o diálogo e a simplicidade. É nesse ponto que a vaidade acadêmica destrói a educação: ela mata o gesto, abafa o encontro e esvazia a humanidade. Que valor tem o conhecimento se ele não nos torna melhores, mais empáticos e atentos ao outro?

A história que compartilho não é apenas sobre uma funcionária que se surpreendeu com um “bom dia”. É, antes de tudo, um retrato da urgência de repensarmos nossa postura como docentes e intelectuais. Precisamos desarmar o ego e resgatar o humano. Afinal, a verdadeira grandeza acadêmica não está em títulos, mas na capacidade de reconhecer a dignidade em cada pessoa que cruza nosso caminho.

Que a universidade do futuro seja menos palco de vaidades e mais espaço de humanidade. Que ela seja capaz de enxergar todos os seus atores, sem invisibilizar aqueles que, silenciosamente, a mantêm viva.

Prof. Dr. Renan Antônio da Silva