A vida acadêmica no Brasil é permeada por desafios que extrapolam a simples produção científica. Para além das dificuldades estruturais, como cortes de verbas, precarização das universidades e escassez de bolsas, um problema silencioso, mas devastador, atinge diretamente os jovens pesquisadores: a perseguição velada por parte de colegas mais velhos, muitas vezes detentores de poder nos espaços acadêmicos.

O cenário da pós-graduação e da pesquisa científica brasileira deveria ser, por princípio, um espaço de incentivo, acolhimento e renovação. Afinal, a ciência só se sustenta pela constante entrada de novas gerações capazes de trazer perspectivas inovadoras e críticas atualizadas. No entanto, o que se observa em muitos casos é a criação de barreiras explícitas ou sutis que visam limitar o crescimento de jovens pesquisadores. Isso ocorre, por exemplo, quando orientadores mais experientes dificultam a entrada de novos docentes em concursos, exercendo influência nos bastidores para que os aprovados sejam aqueles que lhes são mais convenientes, e não necessariamente os mais qualificados.

Além disso, em bancas de defesa de mestrado, doutorado ou em processos seletivos de bolsas e editais, é comum que jovens acadêmicos encontrem resistência por parte de avaliadores que enxergam a presença da juventude como uma ameaça à própria trajetória consolidada. Esse movimento não é apenas individual, mas estruturante: sustenta-se em uma lógica hierárquica na qual o poder acadêmico é mantido a partir da exclusão do outro, especialmente daquele que representa inovação e vitalidade.

A perseguição pode se manifestar de diversas formas. Em alguns casos, ela é explícita: desqualificações públicas, comentários irônicos, tentativas de deslegitimar a produção intelectual do pesquisador mais jovem. Em outros momentos, assume contornos sutis: convites que não chegam, indicações que não se concretizam, apoios que são negados de maneira silenciosa. São práticas que, embora possam parecer pequenas, minam a confiança e a permanência de muitos jovens na carreira acadêmica. A sensação de isolamento e de não pertencimento é um efeito colateral devastador dessas perseguições.

É importante frisar que não se trata de um embate geracional simplista entre jovens e velhos, mas de uma relação de poder. Muitos professores experientes atuam como verdadeiros mentores, abrindo portas e incentivando novas trajetórias. Entretanto, não se pode ignorar a existência daqueles que se utilizam do tempo e da posição que ocupam para impedir o avanço de quem está começando. Esse comportamento reflete não apenas uma questão individual, mas uma falha ética e institucional, na medida em que impede a renovação e, consequentemente, compromete a própria qualidade da ciência produzida no país.

Um dos grandes paradoxos dessa perseguição é que, ao limitar a ascensão dos jovens, perde-se também a possibilidade de produzir ciência de ponta. O jovem pesquisador, em geral, traz consigo inquietações atuais, abertura ao diálogo interdisciplinar e proximidade com as novas demandas sociais. Ao silenciar ou barrar esses sujeitos, a academia se fecha em si mesma, reproduzindo modelos engessados e distantes das reais necessidades da sociedade brasileira.

Superar esse cenário exige coragem institucional. Universidades e programas de pós-graduação precisam assumir a responsabilidade de criar mecanismos de proteção e incentivo aos jovens pesquisadores, valorizando sua produção e garantindo a transparência em processos seletivos e concursos. É preciso que se estabeleçam práticas mais democráticas e horizontais, nas quais a experiência dos mais velhos dialogue com a vitalidade dos mais novos, em vez de sufocá-la.

Por fim, cabe aos jovens resistirem e denunciarem as práticas de perseguição que os atingem, ainda que isso signifique enfrentar estruturas consolidadas e, muitas vezes, hostis. A luta por reconhecimento e espaço não é apenas individual, mas coletiva, na medida em que diz respeito ao futuro da ciência brasileira. Se a academia continuar a se fechar em castelos de poder, será cada vez mais incapaz de cumprir sua função social: produzir conhecimento crítico, plural e transformador.

Como já afirmei em outro momento: "Excluir incluindo ou incluir excluindo: eis o grande dilema das instituições que se dizem inclusivas."

Prof. Dr. Renan Antônio da Silva