A Educação Libertadora de Freire como Contraponto à Manipulação e ao Autoritarismo
No cenário educacional e social contemporâneo, a obra de Paulo Freire, especialmente sua seminal "Pedagogia do Oprimido", lançada há cinquenta anos no Brasil (e inicialmente em 1968, no Chile), ressoa com uma urgência particular. Longe de ser apenas um tratado sobre técnicas de ensino, Freire aprofundou questões e permeou a educação com ações filosóficas, deslocando toda a ação educativa para que a própria educação fosse a metodologia. É essa abordagem, profundamente filosófica e humanista, que posiciona a epistemologia freireana como um poderoso contraponto às forças de manipulação e autoritarismo que frequentemente buscam moldar a sociedade e o pensamento humano.
A proposta de Freire, que visa construir uma mentalidade emancipada para uma sociedade justa e solidária, inevitavelmente "incomoda os manipuladores da 'propaganda'" e pode causar confusão naqueles que estão acostumados ao status quo. O educador brasileiro tornou-se, ele próprio, um alvo de ataques por parte de grupos que defendem um projeto específico de dominação, aspirando que a educação exerça um "poder de polícia". Para esses, a prática educativa ideal é aquela que reduz o indivíduo a um "padrão estereotipado e opressivo", conforme uma visão maniqueísta de "bom" e "mau". Esta perspectiva se alinha com o pensamento neoliberal, que busca transformar a educação em uma mercadoria de luxo, acessível apenas a poucos, perpetuando assim a dialética colonial e a "escravidão", que hoje se manifesta na pobreza.
A relevância da epistemologia freireana se acentua na medida em que vivemos um período de banalização das expressões políticas e disseminação descontrolada de desinformação, fruto da manipulação consciente exercida pelos detentores do poder econômico e cultural, especialmente as mídias. É fundamental reconsiderar as contribuições de Freire à humanidade no campo da educação, pois ele consistentemente aborda a condição das pessoas "desumanizadas, marginalizadas quanto à existência e vivendo à periferia da sociedade contemporânea". O neofascismo emergente no século XXI, por exemplo, ilustra como aqueles que se opõem a Freire são, muitas vezes, vítimas da própria manipulação e alienação que criticam.
A Instrumentalização da Educação como Ferramenta de Dominação: Lições do Passado e Presente
A história nos mostra que a educação, quando instrumentalizada, pode se tornar uma ferramenta perigosa para a dominação e a produção da barbárie. Embora se entenda que a educação visa conferir às gerações futuras os saberes necessários à existência civilizatória e moldar o ser humano ao "ethos" coletivo para a vida em sociedade, o século XX demonstrou que a instrumentalização da educação pelo Estado ou por instituições civis falha em contemplar o axioma integral da ação educativa. Os avanços tecnológicos e científicos, por exemplo, não foram capazes de impedir a realidade cruel da guerra e da desigualdade social; pelo contrário, o "poder simbólico" advindo do "capital cultural" pode gerar novos conflitos de interesse.
O dogma de que "a educação é a solução e caminho para o desenvolvimento" não é absoluto, pois é preciso questionar "quem, por que e como tal ação estará direcionada". O período do nazismo alemão serve como um exemplo chocante de como a educação pragmática pode ser usada para fins totalitários. O regime nazista, com sua cúpula e o povo alemão, não foram privados de educação; na verdade, regimes totalitários investem consideravelmente nesse campo, utilizando os saberes educacionais como ferramentas para a barbárie. A filósofa Hannah Arendt (2017) observa que o totalitarismo não surge de repente, mas é "semeado e cultivado a partir do direcionamento doloso da educação para produzir um pensamento hegemônico que prive as pessoas da capacidade crítica e ação ética". A insurgência do nazismo seguiu etapas como a desqualificação do magistério, a vulgarização da intelectualidade, o rebaixamento das artes e a imposição de uma Cultura, além de um pesado investimento em qualificação técnica e operacional, tudo sob as diretrizes do regime totalitário. A "propaganda" nazista, que atraía a "ralé" por meio da manipulação da realidade e da massificação do pensamento, demonstra a eficácia perversa da educação instrumentalizada.
Eventos recentes no Brasil ecoam essa realidade histórica. Embora o governo brasileiro tenha investido significativamente na educação no início do século XXI, especialmente no ensino superior, permitindo o acesso e a qualificação de milhões de pessoas que antes não tinham essa oportunidade, "tais pessoas não foram preparadas para compreender a 'propaganda'". Isso levou, por exemplo, a multidões exigindo a derrubada de uma presidente eleita legitimamente, mesmo diante de evidências de um processo viciado por informações distorcidas propagadas pela imprensa. Esse fenômeno revela a persistência de uma mentalidade colonial na cultura brasileira, descrita por Darcy Ribeiro (1995), onde o "patriciado tecnicista" – incluindo autoridades acadêmicas – demonstra reservas quanto à verdadeira emancipação do povo.
A visão de Freire sobre a educação, que propõe uma abordagem muito específica para a educação básica a fim de formar um "ser" adulto, dialético e transformador, contrasta fortemente com essas tendências. Essa visão "incomoda os manipuladores da 'propaganda'" e o "patriciado tecnicista" porque a liberdade de aprender, para Freire, parece estar à frente da liberdade de ensinar, algo que pode perturbar aqueles apegados às cátedras.
Os desafios da hipermodernidade no século XXI incluem o "avanço feroz da pauta neoliberal e da mentalidade neofascista, bem como a disseminação descontrolada de desinformação", que produziu hostilidade contra a educação no Brasil. A sociedade brasileira tem buscado refúgio no autoritarismo e conservadorismo desenfreados, como se estes pudessem assegurar direitos, o que é contraditório e inviável, pois não se respeitam direitos com a eliminação de liberdades fundamentais. A distorção das liberdades, quando "mentirosos querem usar a liberdade de expressão para semear mentiras, dúvidas, medos e ferramentas que escravizam as mentes", é uma manifestação direta da manipulação e do autoritarismo que Freire combate.
A Epistemologia Freireana: Filosofia como Alicerce da Libertação
A diferença crucial entre a educação instrumentalizada e a proposta por Freire reside em seu alicerce filosófico, e não meramente técnico. As diversas escolas educacionais do século XX, como construtivismo, comportamentalismo, cognitivismo, entre outras, forneceram teorias interessantes sobre a aprendizagem, valendo-se das Ciências Sociais, Psicologia e Neurociência. No entanto, nenhuma dessas práticas conseguiu abarcar a totalidade necessária para o que Edgar Morin (1999) descreve como "pensamento complexo", que exige transdisciplinaridade. A abrangência da educação é tão vasta que reduzi-la a meras práticas educacionais desvia de sua real direção e potência.
A filosofia distingue teknné (técnica ou tecnologia) de episteme (teoria, sustentação filosófica). Enquanto a teknné se refere à atividade objetiva, à prática do conhecimento construído, a episteme está ligada à teoria, ao plano das ideias onde reside a consistência e o fundamento da realidade. Paulo Freire, em sua obra, constrói sua pedagogia demonstrando esses aspectos, não abordando técnicas sobre educação e aprendizagem, mas sim deslocando a ação educativa para que a educação seja a própria metodologia. Sua epistemologia nasce com um fundamento filosófico, buscando compreender o que se sabe, como e por quê, e dedicando-se à criação e reflexão constante sobre problemas. Para Freire, a educação não é uma solução pronta, mas um problema constante e multifacetado.
É notável no pensamento freireano a presença constante de termos e problemas estudados pela filosofia. A ambiguidade na relação opressor/oprimido, a contradição e a ironia são abordadas pela lógica filosófica. Conceitos como "dialética existencial, alteridade, autonomia, emancipação e liberdade" são problemas filosóficos atemporais. A dinâmica da ação moral e política adentra o corpo da Ética, enquanto a experiência do aprender e seu poder de emancipação são cuidados pela Estética. A preocupação de Freire em estimular a solidariedade nas relações humanas, especialmente entre professor e aluno, permeia a Metafísica e a Ontologia. Dessa forma, Freire demonstra a possibilidade de considerar a educação sob um prisma filosófico, garantindo que ela nunca seja completa ou reduzida a absolutos axiomáticos, mas que esteja sempre sujeita à reflexão, análise e reformulação. Essa profundidade filosófica é o que torna a educação de Freire um baluarte contra a manipulação e o autoritarismo, que prosperam na superficialidade e na rigidez.
Liberdade e Emancipação em Freire: Uma Busca Ativa contra a Servidão
A "Pedagogia do Oprimido" de Freire, escrita em um período sombrio de ditaduras na América Latina, orquestradas muitas vezes por interesses externos, expõe uma percepção que contrasta com a visão reacionária de mudar as pessoas a partir do mundo em que estão inseridas. Para Freire, a verdadeira transformação vem da pessoa para a sociedade. Ele valoriza a dignidade da pessoa humana, enfatizando a necessidade de ações educativas simbióticas e sinérgicas, onde a história e o contexto do indivíduo são a base para a construção dos saberes. Em sua visão, não há antagonistas, mas múltiplos personagens interdependentes que colaboram em uma dinâmica horizontalizada, de respeito e afeto, onde ensinar e aprender são movimentos contínuos de externalização e internalização de saberes. Educadores mantêm sua autonomia e liberdade, e estudantes são estimulados à reflexão crítica sobre suas circunstâncias, sem a necessidade de tutela.
Com essa concepção, Freire expõe como função precípua de sua metodologia a educação que visa "libertar e emancipar o pensamento humano". Professores e alunos estão juntos na busca por construir dinâmicas sociais em metamorfose, em direção a um indivíduo esclarecido sobre si mesmo e o mundo. Freire lembra que a "liberdade, que é uma conquista, não é uma doação, exige busca permanente". Ninguém possui liberdade para ser livre, mas "luta por ela precisamente porque não a tem", o que é uma condição indispensável para o movimento de busca dos seres inconclusos.
O século XXI revela que a sociedade humana está alienada do verdadeiro sentido de liberdade. Se essa condição essencial à existência e dignidade humanas estivesse presente, não haveria conflitos subjetivos, sociais e pragmáticos. A pessoa se desenvolve na dinâmica constante desses três elementos: a busca de sua própria realidade e compreensão de si (subjetivo); a interação natural com múltiplos atores de sua vida (social); e a presença de instituições que estabelecem a estrutura social (pragmático), levando à ontologia e fenomenologia que buscam a conquista da liberdade.
Para Freire, ser livre não é uma ilusão orquestrada pela "indústria cultural", que oferece um "cardápio" de imposições, padrões e estereótipos que perpetuam a servidão aos interesses dos detentores do poder econômico e cultural. A verdadeira liberdade exige a compreensão da dicotomia mundo/sujeito em constante dialética, permitindo que o indivíduo seja mundo enquanto o mundo viabiliza sua existência e ação prática. A mera prescrição ou exposição exaustiva de conteúdos perpetua a servidão simbólica às ilusões de uma "liberdade adquirida", muitas vezes baseada no lendário "mérito", que não leva à verdadeira conquista do ser livre e da capacidade crítica. É imperativa a ruptura com essas ideologias escravizantes da sociedade contemporânea para se alcançar a plenitude humana.
Freire não concebia a educação como uma "fábrica" de reificação (objetificação) ou de mão-de-obra. Ele compreendia a educação como um "processo dialógico", uma "exigência existencial". Portanto, a educação não poderia ser extirpada daqueles que foram abandonados educacionalmente. Existir implica em agir, e essa atitude é oriunda da ação educativa que desenvolve as habilidades humanas ao ponto de emancipar e libertar. Sua afirmação "não estou no mundo, eu sou no mundo" tem implicação ontológica, fenomenológica e dialética, mostrando como o ser humano se torna um agente de transformação ao ser conscientizado de sua capacidade e necessidade de ação dinâmica para a emancipação. A autonomia, para Freire, é um "processo, é vir a ser", um amadurecimento do ser para si, centrado em experiências que estimulam a decisão e a responsabilidade, respeitando a liberdade.
A epistemologia freireana vê a educação não como a finalidade, mas como o itinerário, com múltiplas ferramentas que podem conduzir à plena liberdade ou emancipação do sujeito. A busca de si mesmo, se insatisfeita, pode alienar a pessoa de sua existencialidade, ou seja, de sua capacidade de se compreender como parte inseparável e, ao mesmo tempo, dependente da coletividade. O pensamento de Freire abrange a reflexão filosófica perene sobre o "porque, como, onde e quando somos". A educação deve proporcionar saberes que levem o indivíduo à reflexão constante sobre si mesmo, o mundo e as interrelações em suas constantes transformações.
A preocupação de Freire com esses aspectos leva-o à afirmação de que "há que se aprender a sua palavra, pois com ela, constitui a si mesmo e a comunhão humana em que se constitui; instaura o mundo em que se humaniza, humanizando-o". Esse pensamento, influenciado pelo cristianismo, vai além da posse ou compartilhamento do comum, buscando e trazendo o outro para junto de si, para criar união, solidariedade e altruísmo, tal qual a "alteridade" de Lévinas (1989). A alteridade, para Freire, não é apenas se colocar no lugar do outro, mas a necessidade de se constituir a partir do outro, sendo a própria essência da vida social onde todos são corresponsáveis pelo bem e desenvolvimento. Essa visão contrasta com a sociedade do espetáculo, na qual o individualismo prevalece. Freire enfatiza a necessidade da liberdade e emancipação para ambos, o oprimido e o opressor, pois a libertação de um implica a libertação do outro.
Freire não vitimiza as pessoas, mas lhes concede a capacidade de agir e reagir. Em sua proposta, a responsabilidade pela emancipação recai sobre todos, para evitar o vício da reprodução, onde o treinado age exatamente como seu treinador, sem questionamento. Esse processo de construção constante da liberdade, mediado pela metodologia da educação, está presente em toda a obra freireana e é "ousado e perturbador" para aqueles que dependem da exploração da dependência, seja em relações humanas ou institucionais.
O Grito por Libertação: Desafios Contemporâneos e a Urgência de Freire
A privação da liberdade entre humanos é o "crime contra a dignidade mais antigo de que se tem relatos". A escravização, humilhação, pobreza e violências são formas pelas quais a humanidade tem privado pessoas de sua condição humana, rebaixando-as a condições indecentes de existência. A educação ofertada pelo Estado, muitas vezes, sofre com ataques e distorções, sendo exposta como "ameaça" à ordem moral e política. Contudo, na epistemologia de Freire, a educação, sendo o método, não sofre impactos no resultado porque "não são as ideias que a sustentam, mas a Filosofia e sua prática".
O foco principal do pensamento de Freire é o "ser" humano em plenitude e sem opressões externas, algo que representa uma ameaça direta aos projetos de poder totalitários. Avanços contra direitos fundamentais e humanos, e a distorção da dignidade humana, levam muitas pessoas a agirem contra seus próprios interesses. Aqueles que se opõem à proteção dos direitos humanos esquecem que, ao fazê-lo, lutam contra si mesmos. Ao se esperar que a educação produza um determinado tipo de cidadão, perverte-se seu objetivo com mecanismos de dominação que visam enquadrá-la. As abismos e diferenças estruturais são criados sob o paradigma cruel de que "a liberdade de alguns é produzida às custas da escravização mental, cultural e social de muitos".
A liberdade, para Freire, é a plena capacidade do ser humano de se compreender como único e, ao mesmo tempo, conectado à coletividade, sendo partícipe e dependente desta em um movimento virtuoso. A pessoa que alcança a liberdade produz a emancipação, ou seja, a independência de pensar e racionalizar, buscando meios de contribuir para o bem comum. Não há egocentrismo, individualismo ou populismo que possam resistir à proposta de Freire, o que é particularmente relevante no mundo dos "stalkadores" digitais e "influenciadores" que levam as pessoas a "abdicarem do seu privilégio de poder 'ser' humano". Isso reforça a relevância de Freire como um contraponto à manipulação em um cenário digital complexo.
O cenário atual é um lembrete constante da responsabilidade que temos de atuar ou recuar em momentos de crise. Freire, que vivenciou a ditadura e o exílio, nunca desistiu ou ignorou as condições degradantes do outro; sua indignação o levava a agir, não apenas para denunciar, mas para mostrar o caminho da ação para inibir as opressões. A epistemologia de Freire, profundamente carregada de Filosofia, convida à "reflexão constante quanto à ação educativa e a promoção da emancipação da mentalidade humana". Não existem soluções rápidas ou mirabolantes para os problemas da sociedade contemporânea, mas Freire expôs, por décadas, meios para viabilizar uma sociedade fraterna, justa e solidária.
Não há mundo sem educação, assim como não há educação sem o mundo. A necessidade de educar deve ser fundamentada no desejo de permitir às pessoas a capacidade de usar o raciocínio e a inteligência para o que é necessário. A epistemologia de Freire sugere que essa busca parta das necessidades do outro para si, ou, ao iniciar em si mesmo, que faça a transformação para mudar o que não tem sido útil. O Brasil, contudo, ainda desconhece a abrangência e o alcance do pensamento de Freire, demandando mais discussões, especialmente nas regiões mais ricas da nação.
Não haverá um novo Brasil sem uma educação que promova a pacificação e o diálogo baseado no respeito mútuo e na consideração das prioridades corretas. Não se trata do "certo" e "errado", mas do "desejável" e "possível" na "retomada da conscientização política do povo brasileiro, sempre manobrado e vilipendiado por agentes econômicos e poderosos influenciadores culturais". Através da epistemologia de Freire, auxiliando as pessoas a se transformarem, uma nova realidade surgirá, fruto do trabalho incansável dos educadores que anseiam pela emancipação e liberdade de todo o povo brasileiro.
A educação libertadora de Freire é, portanto, um farol em tempos de manipulação e autoritarismo, pois ela não se restringe a métodos ou técnicas, mas propõe uma revolução pacífica para a construção de uma sociedade renovada. Ao invés de enquadrar e formatar pessoas para serem dóceis às barbáries, Freire propõe um caminho de diálogo, criticidade e autonomia, onde a dignidade humana é resgatada e a liberdade é uma busca incessante e compartilhada. É um convite à ação e à reflexão constante para que a educação cumpra seu verdadeiro propósito: conduzir o ser humano "para fora" da ignorância e da servidão.
