Em 2014 publiquei o artigo O pecado chamado prazer: análise do paradigma sexual entre os adolescentes membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias a partir da ótica de Michel Foucault, na Revista Hispeci & Lema On-Line. Passados doze anos, em 2026, revisitar esse texto é revisitar também uma etapa decisiva de minha trajetória intelectual no diálogo entre Teologia e Ciências Sociais. São doze anos de maturação teórica, ampliação metodológica e aprofundamento ético sobre uma questão que permanece atual: o prazer é pecado ou construção discursiva?

Naquele momento, o objetivo central foi tensionar o discurso moral da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias com a hipótese foucaultiana de que a sexualidade moderna não foi simplesmente reprimida, mas colocada em discurso por dispositivos de poder. Inspirado sobretudo em Michel Foucault, especialmente em História da Sexualidade, argumentei que a chamada repressão sexual no contexto mórmon não poderia ser entendida apenas como proibição moral, mas como parte de um regime de produção de verdades sobre o corpo, o desejo e a salvação.

O artigo partia da constatação de que a moral da castidade, ensinada sistematicamente aos jovens, organiza o corpo como templo, o desejo como risco e o prazer como potencial queda. A pedagogia religiosa, sustentada por textos canônicos e discursos institucionais, constrói uma gramática moral na qual o sexo fora do casamento é não apenas erro comportamental, mas ruptura espiritual. A categoria “pecado” opera, assim, como tecnologia de subjetivação: ela molda consciências, disciplina afetos e produz identidades religiosas. Na leitura que fiz à época, esse processo poderia ser interpretado à luz do conceito de micro-poder, pois não se tratava apenas de imposição vertical, mas de internalização difusa das normas.

Entretanto, já naquele texto havia uma preocupação em não reduzir a religião a mera instância repressiva. Foucault não negava a existência de repressões; ele questionava a narrativa segundo a qual a modernidade teria sido marcada exclusivamente por silenciamento sexual. O que ele propôs foi compreender como o poder incita discursos sobre o sexo para melhor regulá-lo. Ao aplicar essa chave de leitura ao universo mórmon, procurei demonstrar que a moral sexual não é apenas interdição, mas também produção de sentido. O jovem não é apenas vítima de um sistema; ele é também agente que reproduz, legitima e ressignifica esse sistema.

Doze anos depois, reconheço que o texto foi ousado ao aproximar Foucault da teologia restauracionista. Hoje percebo que aquela análise estava marcada por uma ênfase maior na dimensão disciplinar do discurso religioso. Em 2026, minha leitura se tornou mais complexa. Aprendi que reduzir a experiência religiosa à categoria de repressão empobrece o fenômeno. A disciplina pode ser vivida como opressão, mas também pode ser compreendida como escolha ética, projeto existencial e construção identitária.

Se em 2014 o foco recaiu sobre a tensão entre prazer e pecado, hoje percebo que a própria noção de prazer precisa ser ampliada. Naquele momento, tratei sobretudo do prazer sexual enquanto expressão corporal regulada pela moral religiosa. Atualmente, entendo que o prazer pode assumir múltiplas formas: prazer na obediência, prazer na pertença comunitária, prazer na coerência entre crença e prática. Para muitos jovens religiosos, a castidade não é sofrimento, mas afirmação de sentido. A obediência pode gerar estabilidade subjetiva, e essa estabilidade pode ser experimentada como forma de satisfação profunda.

Isso não significa negar os conflitos. Ao contrário, as tensões permanecem. A cultura contemporânea intensificou a exposição dos corpos, a erotização precoce e a fluidez identitária. O jovem religioso de 2026 enfrenta desafios ainda mais complexos do que o de 2014. Redes sociais, hiperconectividade e discursos de autonomia ampliaram as possibilidades de escolha e os dilemas morais. Nesse cenário, a moral sexual religiosa pode parecer anacrônica para alguns e protetiva para outros. O debate permanece aberto.

O que mudou significativamente em minha abordagem foi a centralidade da agência. Se antes a análise destacava o dispositivo disciplinar, hoje enfatizo mais a capacidade de interpretação dos sujeitos. O jovem não apenas recebe normas; ele negocia com elas. Há quem as internalize integralmente, há quem as adapte e há quem as rejeite. A experiência religiosa não é homogênea. A categoria “pecado chamado prazer” continua válida como provocação teórica, mas precisa ser situada dentro de uma pluralidade de vivências.

Outra mudança importante diz respeito à relação entre moral e liberdade. Em 2014 dialoguei com tradições filosóficas que viam a lei moral como possível ameaça à autonomia. Hoje reconheço que a liberdade não é necessariamente ausência de norma. Pode ser adesão consciente a um código ético. A questão central não é a existência da regra, mas o modo como ela é internalizada. Quando a norma é incorporada de forma reflexiva, ela pode fortalecer a identidade em vez de anulá-la.

No campo das Ciências Sociais, o debate sobre sexualidade tornou-se ainda mais atravessado por temas como gênero, diversidade corporal e reconhecimento. Minha produção posterior ampliou esses horizontes, permitindo que eu percebesse que o discurso religioso sobre o corpo dialoga, muitas vezes de forma conflituosa, com movimentos sociais contemporâneos. O artigo de 2014, nesse sentido, foi precursor de reflexões que hoje desenvolvo com maior densidade empírica e teórica.

Contudo, algumas convicções permanecem. Continuo sustentando que a sexualidade não pode ser analisada apenas como dimensão biológica. Ela é construção histórica, atravessada por saberes, instituições e disputas simbólicas. Permanece válida a intuição foucaultiana de que o poder não é apenas repressão, mas produção. Permanece também a convicção de que a religião é espaço de formação de subjetividades, capaz de oferecer tanto limites quanto sentidos.

O título “pecado chamado prazer” ainda provoca porque expõe um conflito estrutural da modernidade: o embate entre ética transcendente e autonomia individual. Em 2026, contudo, acrescento que prazer e pecado não são categorias fixas; são interpretadas à luz de tradições específicas. O que para uma comunidade é transgressão, para outra é direito. O desafio acadêmico não é julgar, mas compreender.

Doze anos depois, vejo aquele artigo como um marco formativo. Ele consolidou minha inserção no debate entre Teologia e Ciências Sociais e mostrou que é possível tratar de temas sensíveis com rigor analítico. Se hoje eu reescreveria algumas passagens com maior nuance, também reconheço que a provocação original continua pertinente. A tensão entre prazer e moralidade não desapareceu; apenas assumiu novas formas.

Em síntese, o que mudou foi a complexidade da lente; o que permanece é a inquietação intelectual. A pergunta central continua viva: quando chamamos o prazer de pecado, estamos reprimindo o corpo ou organizando simbolicamente a vida? Talvez a resposta não esteja na oposição entre repressão e liberdade, mas na compreensão de que toda sociedade, religiosa ou secular, produz normas para dar sentido ao desejo humano. A tarefa das Ciências Sociais e da Teologia, em diálogo crítico, é iluminar essas produções sem reducionismos, reconhecendo tanto seus riscos quanto suas potências.