O Ensino a Distância (EaD) se tornou parte essencial da educação superior brasileira. Mesmo assim, a resistência ao modelo continua forte, especialmente nas instituições públicas. Mas afinal, por que isso ainda acontece? E o que os dados revelam sobre essa rejeição?

A partir da análise de informações do Censo da Educação Superior e de reflexões sobre o cenário educacional, é possível compreender que parte da resistência ao EaD nasce de equívocos, falta de informação e apego a tradições universitárias profundamente enraizadas. Durante muitos anos, o termo “EaD” foi associado a cursos frágeis, facilitados ou até duvidosos, e esse estigma permanece no imaginário coletivo — mesmo quando a modalidade já se consolidou no Brasil e no mundo.

Outro elemento importante é o apego ao modelo instrucionista: a aula expositiva como centro de tudo. A universidade historicamente preserva esse formato como se fosse intocável, mesmo sabendo que os processos de aprendizagem verdadeiramente profundos — como ocorre no mestrado e no doutorado — não dependem de aula, mas sim de autoria, pesquisa e autonomia do estudante. Paradoxalmente, aquilo que a própria universidade valoriza nos níveis mais avançados não é estimulado de forma consistente na graduação.

Os dados nacionais mostram que a resistência institucional ao EaD é concreta. Nas universidades federais, a oferta de vagas a distância ainda é muito menor do que no presencial. A procura também é baixa, reforçando um ciclo em que candidatos preferem o presencial por acreditarem que a modalidade oferece maior qualidade — uma percepção que não encontra respaldo integral nos números de desempenho.

Ao analisar o Enade, por exemplo, vemos que a diferença entre cursos presenciais e a distância não é tão grande quanto se imagina. Em alguns casos, cursos EaD chegam a apresentar percentuais ligeiramente superiores de conceito máximo em relação ao presencial. Isso indica que não é a modalidade que determina a qualidade, mas sim o projeto pedagógico, a seriedade da instituição e o compromisso com a aprendizagem.

Ainda assim, a evasão na EaD é um desafio real. Em algumas regiões, a quantidade de alunos que começam e não terminam o curso é muito alta. Parte disso decorre do perfil do estudante, que geralmente trabalha, tem menos tempo e precisa conciliar múltiplas responsabilidades. Outra parte vem do fato de que muitas instituições ainda reproduzem na EaD o mesmo modelo problemático do presencial: aulas longas, atividades mecânicas e foco excessivo em transmissão de conteúdo.

Se o EaD quiser avançar como proposta educacional transformadora, não basta “ser igual ao presencial”. É preciso ser melhor. Isso significa construir ambientes que favoreçam a autonomia, a autoria e a aprendizagem ativa. Significa abandonar a reprodução de aulas gravadas como solução padrão e assumir que aprender envolve ler, pesquisar, elaborar, reconstruir e interagir de forma significativa — muito além da passividade da sala de aula tradicional.

A educação digital tem potencial para renovar práticas e democratizar o acesso ao ensino superior, mas isso exige coragem para romper com modelos ultrapassados. A resistência ainda existe, sim, mas tende a diminuir à medida que instituições, docentes e estudantes compreendem que a qualidade do EaD depende menos da distância e mais da forma como se promove a aprendizagem.

O desafio não é apenas aceitar o EaD. É reinventar a educação.

Veja o artigo completo