Renan Antônio da Silva – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade

1. Introdução: o tempo que nos escapa

Procrastinar é humano. Mas quando a procrastinação habita os espaços da ciência, ela ganha contornos complexos, éticos e até poéticos. No cotidiano acadêmico — entre artigos, orientações, bancas e editais — o tempo parece um campo de disputa, e o adiamento, uma forma de resistência.

No universo científico, o atraso raramente é apenas preguiça. É também angústia, pressão e medo de não estar à altura. Muitos pesquisadores, especialmente os mais jovens, experimentam o fardo de uma produtividade que parece infinita. O artigo não é mais apenas uma contribuição intelectual, mas uma unidade de sobrevivência.

Em um de meus textos, escrevi que “a ciência se faz no intervalo entre a inspiração e a coragem de expor-se ao julgamento público” (SILVA, 2022). É nesse intervalo que mora a procrastinação — no medo de publicar, no perfeccionismo travestido de rigor, no adiamento constante de colocar em palavras o que já está pronto em pensamento.

Procrastinar, portanto, não é sempre sinal de desorganização. É, muitas vezes, a forma inconsciente de lidar com a vulnerabilidade de criar.

2. O peso da produção e o medo de não bastar

A ciência moderna transformou-se num campo altamente competitivo, onde métricas e índices substituem o tempo da maturação intelectual. É o que Pedro Demo chama de “ditadura da produtividade”, um sistema que mede valor pela quantidade de publicações, e não pela profundidade das ideias.

Nesse contexto, procrastinar pode ser uma espécie de resistência involuntária: um grito silencioso de quem se recusa a ser máquina. Quando o fazer científico perde o sentido de descoberta e vira apenas um número em relatórios, o corpo reage — adiando, silenciando, parando.

Michel Foucault dizia que o poder se infiltra nas práticas cotidianas, e o tempo é um dos instrumentos desse poder. Procrastinar, paradoxalmente, torna-se um ato de subversão: o pesquisador retoma o controle sobre o seu tempo, mesmo que inconscientemente.

Em Educação, formação de professores e universidade: Brasil e suas propostas, escrevi que “a pressa institucional muitas vezes sabota a profundidade, e o imediatismo não permite que o conhecimento floresça”. Essa frase sintetiza a contradição central da vida acadêmica contemporânea: cobramos excelência, mas não damos tempo para que ela se forme.

A procrastinação, nesse sentido, é também um sintoma social. Reflete um modelo universitário que valoriza resultados rápidos, mas esquece que o pensamento científico é, por natureza, lento, reflexivo e incômodo.

3. O silêncio criativo: quando adiar é parte do processo

Há um tipo de procrastinação que não é perda, mas gestação.
Todo pesquisador conhece aquele tempo suspenso entre o insight e a escrita — o momento em que as ideias ainda não têm forma, mas já têm força. É o silêncio antes da formulação, a pausa antes da criação.

Minayo (2010) lembra que toda pesquisa é também um processo subjetivo, e que o conhecimento nasce da convivência entre o rigor e a incerteza. Nesse espaço de incerteza, o adiamento pode significar maturação, e não fuga.

Em outro texto, escrevi que “a pressa em concluir um texto é a negação da própria pesquisa, porque pesquisar é permanecer um pouco mais no incômodo do não saber” (SILVA, 2023). A procrastinação, vista sob essa lente, pode ser uma forma de respeito ao processo criativo — uma espera ativa, em que o pesquisador se permite ser atravessado pelo objeto antes de escrever sobre ele.

Entretanto, há uma fronteira sutil entre a pausa produtiva e o bloqueio paralisante. Quando o medo domina, o adiamento se transforma em autossabotagem. É nesse ponto que o acompanhamento, o diálogo e o acolhimento se tornam fundamentais.
A academia ainda precisa aprender a lidar com a fragilidade de seus sujeitos — professores e alunos —, que são, antes de tudo, humanos.

4. Entre o medo e o movimento: a escrita como libertação

O ato de escrever é também o ato de expor-se. Cada parágrafo é uma confissão pública de pensamentos que podem ser refutados, criticados, ignorados. Daí o medo, daí o adiamento. Mas o que seria da ciência se todos esperassem o momento ideal para se pronunciar?

Foucault afirmava que “todo discurso é uma tentativa de ordenar o caos”. E escrever é, justamente, essa tentativa de dar forma ao que ainda não se entende completamente. O erro — esse fantasma que paralisa tantos pesquisadores — faz parte do processo de construção do saber.

Em Excluir incluindo ou incluir excluindo (SILVA, 2021), defendi que o conhecimento nasce da tensão entre o erro e o acerto, e que “o medo de errar é o primeiro obstáculo para aprender”. A procrastinação, nesse sentido, é também a espera por um texto perfeito — um texto que nunca existirá.

A escrita científica não é o resultado de uma iluminação súbita, mas de um trabalho cotidiano, imperfeito e acumulativo. Cada artigo publicado é apenas uma versão provisória de um pensamento em movimento.

Superar a procrastinação na ciência exige, portanto, reconciliar-se com a imperfeição. Publicar não é encerrar uma ideia; é colocá-la em diálogo com o mundo.

5. Considerações finais: o tempo do humano na ciência

Procrastinar, em última instância, é lembrar que somos humanos antes de sermos pesquisadores. É um gesto de resistência diante de uma academia que, por vezes, esquece da carne em nome do currículo.

A procrastinação na ciência pode revelar desorganização, sim, mas também pode revelar cuidado. É o corpo dizendo que precisa respirar, é a mente pedindo tempo para pensar de verdade. A ciência precisa reaprender a respeitar o tempo da criação, que é mais orgânico do que cronológico.

Não se trata de romantizar o atraso, mas de compreender a complexidade da espera. Nem todo adiamento é ausência de trabalho; às vezes, é apenas o intervalo necessário para que o pensamento amadureça.

Como escrevi em um diário de pesquisa: “Há dias em que não produzo uma linha, mas em silêncio preparo todas as outras” (SILVA, 2023). Essa é, talvez, a essência de toda criação científica: a consciência de que o fazer intelectual não é contínuo, mas pulsante — feito de pausas, retomadas e renascimentos.

Ao final, percebemos que procrastinar não é abandonar o caminho, mas caminhar por dentro.
E quando finalmente escrevemos, não somos mais os mesmos — nem nós, nem o texto, nem a ciência.

Referências
DEMO, Pedro. Inovação e crítica na educação brasileira. São Paulo: Cortez, 2015.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec, 2010.
SILVA, Renan Antônio da. Excluir incluindo ou incluir excluindo: diário de campo em uma escola inclusiva. Ribeirão Preto: Lumen, 2021.
SILVA, Renan Antônio da. Educação, formação de professores e universidade: Brasil e suas propostas. São Carlos: UFSCar, 2023.