Tenho pensado cada vez mais em uma pergunta que, talvez, incomode justamente aqueles que passaram boa parte da vida estudando: afinal, depois de tantos diplomas, títulos, artigos, certificados e currículos, o que realmente aprendemos a pensar por nós mesmos? A pergunta parece simples, mas não é. Vivemos em um tempo em que o currículo se tornou quase uma identidade. Somos apresentados pelos nossos títulos, pelos cargos que ocupamos, pelos artigos que publicamos, pelas instituições às quais pertencemos e pela quantidade de certificados que conseguimos acumular. Mas, quando tudo isso é colocado de lado, quando desaparecem as siglas, os cargos e as credenciais, o que permanece? Essa é, para mim, uma das perguntas mais importantes que a universidade deveria fazer a si mesma.
Não digo isso contra os diplomas. Ao contrário. Tenho enorme respeito pelo estudo, pela pesquisa, pela universidade e por todos aqueles que dedicam anos de suas vidas à produção do conhecimento. O que me incomoda é outra coisa: a possibilidade de termos confundido formação acadêmica com formação intelectual. São experiências diferentes. Uma pessoa pode ter um currículo impressionante e, ainda assim, pensar pouco. Pode publicar muito e escrever pouco de si. Pode dominar uma área inteira do conhecimento e jamais se permitir uma pergunta que ultrapasse os limites da própria especialidade.
Michel de Montaigne, ainda no século XVI, fez uma pergunta que atravessou séculos e continua extraordinariamente atual: “Que sais-je?”, “O que sei eu?”. Há uma espécie de humildade intelectual radical nessa pergunta. Montaigne não constrói o pensamento a partir da certeza absoluta, mas a partir da consciência dos limites do próprio conhecimento. Talvez seja exatamente isso que estejamos perdendo: a capacidade de reconhecer que estudar muito não significa saber tudo.
Francis Bacon, no início do século XVII, compreendeu de outra maneira a força do conhecimento. Sua reflexão sobre ciência, experiência e investigação ajudou a estabelecer uma nova relação entre o ser humano e o mundo que pretendia compreender. O conhecimento, para Bacon, não deveria permanecer simplesmente contemplativo; deveria ampliar nossa capacidade de compreender e transformar a realidade. Mas há uma diferença importante entre conhecer e apenas acumular informações. Conhecimento exige método, reflexão e experiência. Acumulação exige apenas quantidade.
E é justamente aí que a universidade precisa se perguntar para onde estamos caminhando.
Tenho visto uma universidade cada vez mais preocupada em produzir resultados mensuráveis. Publicações, indicadores, pontuações, produtividade, avaliações, relatórios, plataformas e currículos. Tudo precisa ser registrado, contabilizado e demonstrado. E talvez seja justamente nesse excesso de demonstração que estejamos perdendo alguma coisa essencial: o tempo para pensar.
René Descartes, no século XVII, colocou a dúvida no centro de uma das mais conhecidas experiências filosóficas da modernidade. Ao desconfiar das certezas recebidas e buscar um ponto de partida seguro para o conhecimento, chegou à formulação que se tornaria célebre: “Penso, logo existo”. Independentemente das inúmeras interpretações que essa frase recebeu, existe nela uma provocação que permanece atual: pensar não é simplesmente repetir aquilo que recebemos. Pensar começa quando somos capazes de colocar nossas próprias certezas sob exame.
Talvez essa seja uma das maiores dificuldades do nosso tempo. Recebemos informação em excesso e questionamos de menos.
Pensar não é produzir rapidamente. Pensar é também parar. É ler um livro inteiro sem a ansiedade de transformá-lo imediatamente em um artigo. É voltar algumas páginas porque uma ideia não ficou clara. É sublinhar uma frase. É discordar de um autor. É mudar de opinião. É permanecer alguns minutos diante de uma pergunta sem correr para procurar uma resposta pronta. É permitir que aquilo que lemos nos transforme antes de transformarmos a leitura em alguma coisa publicável.
Lemos resumos quando deveríamos ler livros. Procuramos frases quando deveríamos compreender autores. Compartilhamos opiniões antes de formar convicções. Comentamos acontecimentos antes de compreendê-los. Às vezes, temos acesso a uma quantidade extraordinária de informação e, ainda assim, não conseguimos construir uma única reflexão que seja verdadeiramente nossa.
Blaise Pascal, no século XVII, percebeu de maneira quase desconcertante a fragilidade humana diante de si mesma. Seus pensamentos sobre a grandeza e a miséria do ser humano continuam provocadores porque nos lembram que inteligência não é sinônimo de superioridade. O ser humano pode conhecer muito e continuar sendo profundamente limitado. Pode dominar instrumentos sofisticados e permanecer incapaz de responder às perguntas fundamentais sobre sua própria existência.
Talvez a verdadeira inteligência comece justamente quando deixamos de confundir informação com sabedoria.
A inteligência artificial tornou essa questão ainda mais urgente. Hoje podemos escrever em poucos segundos aquilo que antes exigia horas. Podemos resumir livros, organizar argumentos, comparar autores, revisar textos e encontrar informações com uma velocidade extraordinária. Não vejo nisso necessariamente uma ameaça. Vejo uma ferramenta poderosa. Mas existe uma fronteira que precisamos preservar: a diferença entre utilizar uma tecnologia para ampliar nossa inteligência e utilizá-la para substituir o esforço de pensar.
Porque escrever não é apenas colocar palavras em uma página. Ler não é apenas receber informação. Estudar não é apenas acumular conteúdo. A formação intelectual acontece quando aquilo que lemos começa a dialogar com aquilo que vivemos, quando uma teoria nos obriga a rever uma certeza, quando um autor nos provoca, quando uma ideia permanece conosco depois que fechamos o livro.
É aí que percebo uma diferença fundamental entre o especialista e o intelectual. O especialista conhece profundamente um determinado campo. Isso é valioso e necessário. Mas o intelectual não se limita ao domínio de uma área. Ele procura compreender o mundo. Ele atravessa fronteiras. Lê filosofia mesmo sendo da educação. Lê literatura mesmo sendo das ciências sociais. Lê história mesmo sendo do direito. Lê teologia sem deixar de ser cientista social. Conversa com áreas diferentes. Faz perguntas que não cabem confortavelmente em uma única disciplina.
O intelectual não deveria ser prisioneiro da própria especialidade.
Talvez por isso eu admire tanto os grandes pensadores que nos antecederam. Eles não tinham a quantidade de recursos que temos hoje. Não possuíam mecanismos instantâneos de busca. Não tinham bancos digitais com milhões de artigos disponíveis em segundos. Não tinham inteligência artificial para organizar suas ideias. Tinham livros, cartas, manuscritos, bibliotecas, interlocutores e, sobretudo, tempo.
Tempo para ler.
Tempo para duvidar.
Tempo para escrever.
Tempo para recomeçar.
E talvez essa seja uma das maiores ironias da nossa época: temos acesso a praticamente tudo e tempo para quase nada.
Acumulamos documentos, mas perdemos a contemplação. Acumulamos informações, mas perdemos a profundidade. Acumulamos certificados, mas nem sempre acumulamos pensamento.
Precisamos voltar a ler livros inteiros. Precisamos recuperar o prazer de frequentar bibliotecas, físicas ou digitais, sem transformar imediatamente cada leitura em produtividade. Precisamos escrever textos que não tenham como primeira finalidade uma pontuação. Precisamos voltar a escrever porque alguma coisa dentro de nós precisa ser dita.
Um artigo de opinião pode nascer de uma inquietação. Um ensaio pode nascer de uma pergunta. Uma reflexão pode nascer de uma conversa. Nem tudo precisa nascer de um edital, de uma plataforma ou de uma exigência institucional.
O verdadeiro intelectual, para mim, não é aquele que possui respostas para tudo. É aquele que permanece suficientemente humilde para continuar perguntando. É aquele que não tem vergonha de dizer “não sei”. É aquele que consegue reconhecer que um autor de quem discordava tinha razão em determinado ponto. É aquele que continua estudando depois de conquistar o diploma, porque descobriu que o diploma não encerra uma formação; ele apenas registra uma etapa dela.
Montaigne nos ensinou a desconfiar das certezas. Bacon nos ensinou a valorizar a experiência e a investigação. Descartes nos mostrou a força da dúvida metódica. Pascal nos lembrou da grandeza e da fragilidade do ser humano. Séculos depois, ainda estamos diante das mesmas perguntas fundamentais, apenas cercados por tecnologias muito mais poderosas.
Talvez tenhamos acumulado títulos demais e cultivado pensamento de menos. Talvez tenhamos transformado o currículo em uma vitrine e esquecido que conhecimento não é decoração. Conhecimento exige compromisso, disciplina, curiosidade e, sobretudo, humildade.
Uma universidade verdadeiramente forte não deveria ser aquela que apenas produz mais diplomas, mais artigos ou mais especialistas. Deveria ser aquela capaz de formar pessoas que leem profundamente, escrevem com responsabilidade, questionam o mundo e também têm coragem de questionar a si mesmas.
Precisamos recuperar o intelectual como figura pública. Não o intelectual arrogante, que utiliza o conhecimento para estabelecer distância dos outros, mas aquele que transforma aquilo que aprendeu em responsabilidade. Alguém que estuda não para parecer superior, mas para compreender melhor. Que pesquisa não apenas para publicar, mas para contribuir. Que escreve não para preencher páginas, mas porque encontrou uma questão que merece ser colocada diante da sociedade.
A universidade não pode se transformar em uma fábrica de currículos.
A educação superior precisa continuar sendo um espaço de formação humana, de investigação, de dúvida, de liberdade e de pensamento.
Talvez tenhamos esquecido que uma biblioteca não é um depósito de livros. É um encontro silencioso entre consciências que atravessaram séculos. Quando abrimos Platão, encontramos uma pergunta antiga. Quando lemos Montaigne, encontramos alguém examinando a própria existência. Quando acompanhamos Descartes, somos convidados a desconfiar das nossas certezas. Quando lemos Pascal, somos confrontados com nossa própria condição humana.
É por isso que ler continua sendo um ato profundamente revolucionário.
Ler um livro inteiro é, em certa medida, uma forma de resistência.
Resistência contra a pressa. Contra a superficialidade. Contra a necessidade de opinar sobre tudo. Contra a ilusão de que conhecer algumas informações equivale a compreender alguma coisa.
Talvez eu esteja defendendo algo que parece simples demais para o nosso tempo: voltar a ler. Voltar a estudar. Voltar a escrever. Voltar a pensar.
Não para acumular mais um título.
Não para acrescentar mais uma linha ao currículo.
Mas para recuperar aquilo que nenhum diploma pode garantir: a capacidade de construir um pensamento próprio.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quantos títulos temos, quantos artigos publicamos ou quantas linhas ocupamos em um currículo. Talvez seja uma pergunta muito mais difícil, e muito mais honesta: depois de tudo o que estudamos, temos alguma ideia verdadeiramente nossa para oferecer ao mundo?
Se a resposta for não, talvez esteja na hora de voltar a ler.
E de voltar a pensar.